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O protagonismo humano na era da Inteligência Artificial

  • há 1 dia
  • 7 min de leitura

Foto: Pexels


Reflexões de um profissional da voz sobre tecnologia, autoria e responsabilidade


A IA é um problema ou uma solução?

Essa é uma pergunta que aparece com frequência quando o assunto é Inteligência Artificial e, sinceramente, acredito que a resposta depende muito mais das pessoas do que da própria tecnologia.

Uso Inteligência Artificial no meu dia a dia. Ela me ajuda a organizar ideias, estruturar textos, pesquisar informações e automatizar tarefas que antes consumiam muito tempo. Talvez por isso a veja muito mais como uma parceira de trabalho do que uma substituta ou inimiga.

Mas existe uma diferença importante entre utilizar uma ferramenta e transferir a ela responsabilidades que continuam sendo exclusivamente humanas.

A Inteligência Artificial pode ampliar a nossa capacidade de produzir, mas nunca reduzir a capacidade de pensar, criar e decidir; porque, no fim das contas, a discussão não está apenas na tecnologia, está também em como protegemos aquilo que continua sendo exclusivamente humano: a nossa identidade. Isso não diz respeito apenas aos profissionais da voz, diz respeito a qualquer pessoa cuja identidade, incluindo imagem, voz e outras manifestações da sua personalidade, possa ser utilizada por sistemas de Inteligência Artificial.

A Inteligência Artificial já deixou de ser uma novidade. O verdadeiro desafio agora é compreender como utilizá-la de forma consciente e responsável.

Quero compartilhar o caminho que venho percorrendo nos últimos anos, as iniciativas que decidi adotar e razões que me levaram a elas. Não como modelo único, mas como boas práticas diante da realidade que faz parte do nosso trabalho.


A preocupação que vem nos acompanhando

Minha atenção a esse tema não surgiu de uma hora para outra, nem foi resultado de uma única iniciativa. Como muitos colegas, acompanhei esse movimento pelas redes sociais, nas discussões entre profissionais e em mudanças que começaram a aparecer na rotina de quem trabalha com comunicação.

Uma das primeiras iniciativas que adotei foi bastante simples: passei a incluir em minhas mensagens comerciais, por e-mail, uma observação clara de que as gravações fornecidas não poderiam ser utilizadas para treinamento de sistemas de Inteligência Artificial ou para geração de vozes sintéticas sem autorização prévia e específica.

Na época, essa era uma maneira objetiva de comunicar e registrar meu posicionamento sobre um assunto que ainda começava a ganhar espaço; algum tempo depois procurei por uma forma de documentar tecnicamente a minha identidade vocal.

Foi quando conheci o registro em blockchain oferecido pela InspireIP (entre outras plataformas disponíveis) e decidi registrar uma amostra da minha voz. Era importante entender exatamente o que esse registro representava. Ele não impede o uso indevido da voz nem cria uma blindagem tecnológica; sua função é registrar a existência e a integridade de um arquivo específico, vinculado ao seu autor, em determinada data, produzindo uma evidência técnica que pode integrar um conjunto maior de elementos, caso um dia seja necessário demonstrar sua anterioridade. Foi justamente essa objetividade que me interessou. O blockchain não prometia resolver todos os problemas, apenas cumpria, de forma muito clara, aquilo a que se propunha. A partir desse registro, passei a informar sua existência na mensagem de encerramento dos meus e-mails profissionais.

Mais recentemente, acompanhando uma publicação da colega locutora Regina Bittar, conheci a iniciativa da RSL Media, organização internacional sem fins lucrativos, cocriada em maio de 2026 por profissionais do setor criativo, entre eles a atriz Cate Blanchett. A seriedade da proposta e o perfil das pessoas envolvidas despertaram meu interesse em conhecer melhor o projeto por um motivo diferente: enquanto o blockchain documenta tecnicamente uma amostra da identidade vocal em determinada data, a RSL Media criou um Human Consent Registry — um Registro de Consentimento Humano.

A proposta da RSL Media é criar um registro de consentimento legível por máquinas. Seu objetivo principal não é facilitar consultas feitas por pessoas, mas permitir que sistemas de Inteligência Artificial possam interpretar a manifestação de vontade do titular sobre o uso da sua identidade.

Achei a iniciativa suficientemente relevante para compartilhá-la em alguns grupos de profissionais da voz, mas, antes de escrever qualquer coisa sobre o assunto, preferi fazer o caminho completo: pesquisei sua documentação, realizei meu cadastro, optei pelo armazenamento da conta na região da União Europeia, acompanhei todas as etapas de verificação da identidade e aguardei a conclusão do processo. No meu caso, levou cerca de uma semana, desde o preenchimento do questionário até a verificação dos perfis informados e a sua conclusão.

Ao final, recebi uma única mensagem: "Your identity declaration has been approved."

Essa simplicidade me chamou a atenção de forma positiva. Não havia promessas de proteção absoluta nem discursos grandiosos, apenas a confirmação de que minha declaração havia sido analisada, aprovada e vinculada ao respectivo número de registro. Na prática, fui informado da aprovação da minha declaração e recebi um identificador único (RSL ID), que passou a representar essa manifestação de vontade dentro do Registro de Consentimento Humano. Tudo indica que esse identificador foi concebido principalmente para leitura e integração por sistemas automatizados, mais do que para consultas tradicionais feitas por pessoas em mecanismos de busca.


Três iniciativas com funções diferentes

Foi nesse momento que percebi que aquelas iniciativas não competiam entre si, tampouco eram redundantes. Na verdade, cada uma cumpre uma função diferente.

O registro em blockchain documenta tecnicamente uma amostra da identidade vocal em determinada data. Não impede cópias, não controla o uso da voz e não substitui outras formas de proteção jurídica. Mas pode integrar um conjunto de evidências caso seja necessário demonstrar anterioridade ou autenticidade.

A RSL Media tem outra função: tornar pública e verificável a decisão sobre o uso da minha identidade. Sua proposta não é proteger tecnicamente a voz nem impedir seu uso indevido. O objetivo é registrar, de forma pública e legível por máquinas, a manifestação de vontade do titular. No meu caso, optei pela modalidade Prohibited, indicando que minha identidade não pode ser utilizada para treinamento de sistemas de Inteligência Artificial sem autorização expressa. Essa decisão pode ser alterada pelo próprio titular a qualquer momento, permitindo desde a proibição total até a autorização total, passando por uma autorização condicionada a termos específicos de licenciamento. A iniciativa parte de um princípio muito simples e, ao mesmo tempo, extremamente importante. A decisão sobre o uso da identidade deve pertencer ao seu titular.

Por fim, existe uma terceira iniciativa, mais antiga e muito mais simples, mas que também considero útil: passei a incluir, de forma sistemática, informações de identificação nos metadados dos arquivos de áudio entregues aos clientes, mantendo claramente separados os dados relativos à obra daqueles referentes à minha identidade profissional. Esses metadados podem ser removidos durante conversões de formato ou até eliminados intencionalmente. Ainda assim, enquanto acompanham o arquivo, representam mais um elemento de identificação daquele material.

Nenhuma dessas iniciativas impede a má-fé, mas todas contribuem para documentar a boa-fé. Uma documenta tecnicamente uma amostra da identidade vocal, outra documenta publicamente a manifestação de vontade do titular, a terceira identifica o próprio material entregue. Isoladamente, nenhuma resolve o problema. Em conjunto, representam uma postura consciente diante da realidade que estamos vivendo.


Muito além da locução

Embora minha experiência venha do mercado da voz, esse assunto está longe de interessar apenas aos locutores. Escritores, jornalistas, tradutores, revisores, desenhistas, ilustradores, músicos, atores, fotógrafos, roteiristas, produtores, designers, professores e tantos outros profissionais criativos convivem com o mesmo desafio: todos produzem conteúdo, todos possuem uma identidade profissional e todos têm interesse legítimo em decidir como essa identidade poderá ser utilizada no futuro.

A própria Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) demonstra que a proteção da identidade deixou de ser apenas uma discussão tecnológica para tornar-se também uma questão jurídica e social. Não pretendo discutir aspectos legais neste artigo, apenas considero importante reconhecer que essa preocupação deixou de ser uma hipótese distante para tornar-se parte do nosso cotidiano.


O verdadeiro desafio

A Inteligência Artificial já faz parte da rotina da maioria dos profissionais.

Ignorá-la faria tanto sentido quanto imaginar que ela resolverá tudo sozinha. Ela pode acelerar pesquisas, organizar informações, automatizar tarefas repetitivas, auxiliar na estruturação de ideias… Tudo isso representa um enorme ganho de produtividade.

Mas comunicação nunca foi apenas produtividade. É possível que, com o tempo, o excesso de conteúdos produzidos de forma automatizada e padronizada pela IA acabe provocando um efeito contrário ao desejado. Quando tudo começa a soar igual, aquilo que é genuinamente humano passa a chamar atenção justamente por ser diferente e a originalidade volta a ser um diferencial competitivo e é exatamente nesse ponto que está o verdadeiro valor da comunicação humana.


Uma confirmação importante

Para não correr o risco de cometer uma gafe com parceiros, editoras e estúdios, resolvi confirmar uma questão prática antes de publicar este artigo. Consultei Antonio Hermida, especialista em produção de audiolivros, e-books e metadados da Companhia das Letras, sobre a inclusão de identificadores como o RSL ID nos metadados dos arquivos entregues aos clientes, que gentilmente autorizou a reprodução de sua resposta:


"Os metadados, de maneira geral, são apenas informativos e não possuem força jurídica, por assim dizer, e não alteram a titularidade da obra nem criam novos direitos. Dito isso, não tem problema nenhum adicionar um ID, um hash ou uma URL apontando para uma declaração assinada."


Essa observação reforça exatamente a proposta apresentada aqui: utilizar os metadados como um recurso de identificação e documentação, preservando a separação entre a identidade do profissional e a titularidade da obra.


Conclusão

A história mostra que toda grande transformação tecnológica desperta entusiasmo, dúvidas e resistência. A Inteligência Artificial não foge à regra, apenas está acontecendo muito mais rápido.

Ao mesmo tempo, iniciativas como o registro em blockchain, o Human Consent Registry da RSL Media, o uso consciente de metadados e a atenção às normas de proteção de dados demonstram que também estamos evoluindo na forma de compreender e registrar a nossa identidade no ambiente digital. Não porque essas iniciativas resolvam tudo, nem porque impeçam, sozinhas, qualquer uso indevido, mas porque representam ações concretas, possíveis e coerentes com a realidade que já faz parte da nossa atividade profissional.

No fim das contas, talvez a principal lição não seja tecnológica. Seja qual for a ferramenta utilizada, ela continuará dependendo das nossas escolhas. A IA pode ampliar a produtividade, mas não deve reduzir a capacidade humana de pensar, criar e decidir. A Inteligência Artificial continuará evoluindo, isso é inevitável e, em muitos aspectos, desejável. O que não pode se perder é o protagonismo humano.


Para saber mais

RSL Media – Human Consent Registry: https://registry.rslmedia.org/



Meu registro na RSL Media: ID RSL MEDIA VZHQ-92WF-D



 
 
 

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